terça-feira, 5 de abril de 2011

Se meu crime é ser preta. Me confesso com toda coragem e orgulho que trago no meu peito. Sou preta sim!

Sou criminosa, pesa sobre mim a herança cultural de um povo amaldiçoado, na minha pele, no meu cabelo, na minha consciência, sou descendente das Ritas baianas, Tietas, Helenas, Negras Fulôs “mulatas”, sou o pecado, tenho a cor do pecado. Sou a sensualidade, a perdição dos homens brancos, os  deixo enlouquecidos, pois  na cama sou a melhor. Essa sou eu?  Não essa eu não sou, sou sim  uma mulher preta, afrodescendente, que pertenço a um passado e presente de exclusão. Onde sou criminalizada, por ter características de um povo que foi arrancado de sua terra, explorado, escravizado, onde foi negado o meu direito de mulher, de escolher com quem me deitar, de amamentar meus filhos, de ver meus filhos crescerem, de constituir uma família. Fui escrava sexual do branco, amamentei os filhos do branco, cuidei da casa do branco, fui amaldiçoada pelas senhoras, torturada, pois ciumavam de seus senhores, senhores esses que me estuprou, torturou. Sou a vitima algoz. Trago um passado de exploração, exclusão, de desgraças, e por isso sou criminalizada. Agradeço a Aluízio de Azevedo, Jorge Amado, Manoel Carlos, Jorge de Lima, João Emanuel Carneiro, entre outros, pelas personagens de seus livros, poesias e telenovelas onde fui representada, livros e telenovelas esses que foram consumidos pelo meu próprio povo, deixando como herança o pensamento popular, em que só sirvo pra trabalhar como domésticas, ou exibindo meu corpo. Sou barrada nas melhores empresa, nos melhores cargos, mas  não na cozinha e na cama do senhor, esses espaços continuam me pertencendo, graças as tais personagens que  só fizeram aumentar minha sentença e confirmar meu crime de ser preta. Pois ser preta é um crime, e deste sim me confesso. A sentença é dura, e pago um preço ainda maior por não me reconhecer com as tais representações desses senhores,  que já citei, por contrariar a sociedade, entrando nas universidades federais e por construir e contar uma nova história. Sou a outra negra fulô isso eles não disseram, sou Dandara, Nzinga, sou Angela Davis, com elas sim consigo me reconhecer, elas me representam.

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